OBJETO A

Cada vez mais fugidio
O Objeto A. Neste plano, ainda
Visível contra o horizonte.
Os contornos já não fotográficos,
Sujeitos a um olhar desfocado
Ou tremulante. Ainda.
Objeto A fui eu naquela tarde
Chuvosa no roseiral, com a
Maria Nadyr. Quisemos transformar-nos
Em nuvem ou vento. As rosas
Estavam à mão: espinhosas,
Não nos inspiraram. O dia
Conjugava-se inconsciente de que
Seria rememorado quarenta anos depois.
E logo, o silêncio.

II

Ou o barulho. O número do contribuinte
Não esquiva a ficção ruidosa
Da qual descende. Passei pelo revendedor
De rações e lá consumi a minha.
Sob um sol escarninho. A pele
Rizomatizando-se em samambaias.
Os dentes alinhando-se num mudo
Relincho. O Objeto A parece irisar-se
Antes do ponto de sua fissura
Ao final da tarde. Sou parte
Dessa condução, penetro um agora
Que mantém a aura. Ainda.
O teto de madeira, a 5,40 metros,
As vigas musicais, o crepitar
Infinitamente reconfortante
Enquanto durou. Ou durava.
Já não sei qual a conjugação
Adequada.

III

Objeto A: eis-te aqui agora
Sujeito a uma cifra crepuscular.
Nenhum sinal de que não sobrevives
A não ser em mim e pouco. O tangível
Nada envia em sinais.
Não sou o mesmo e já
Não identifico as, sim,
Correspondências.
_________________________Afasta-se
Rumo ao nada o Objeto A?
Perdê-lo para lá do horizonte
Será também perder-me?
Apenas a memória satisfará,
Despida de sentimento e míope?
E sua sobrevivência simples,
À morte já não equivalerá?

Afasta-se o Objeto A.

Horácio Costa, inédito

2 Comments »

  1. “Ou o barulho. O número do contribuinte
    Não esquiva a ficção ruidosa
    Da qual descende. Passei pelo revendedor
    De rações e lá consumi a minha.
    Sob um sol escarninho. A pele”
    Muito interessante este poema e as imagens que ele cria… me vi um pouco nesse trecho que, por ora, me reverbera…

    Oi Virna,
    Sou o carioca que fez aquele comentário na FLAP-Rio que soou como crítica ao universo de blogs. Gostaria me redimir e corrigir minha má expressão no momento. Admiro muito esse mundo virtual onde encontrei tanta coisa boa, carinho e receptividade para minha arte. Gostaria também de parabenizar o seu trabalho feito por e com essa nova geração. Fica também um convite para conhecer minha casinha poética. O que nos enriquece é a interação!

    bjs
    Jardineiros

    Comment by Leandro Jardim — July 26, 2006 @ 12:39 pm

  2. leandro,
    obrigada pela visita, seu comentário soou um pouco ambivalente na flap, mas eu tinha entendido o que você quis dizer. apenas resolvi pontuar que há um produção interessante hoje na internet, que torna a poesia contemporânea mais acessível para um número maior de leitores, que não tem acesso ou não conhece as revistas de peosia ou as pequenas editoras de poesia, por exemplo.
    horácio costa é um poeta excelente, que merece ser lido mais.
    vou conhecer seu blog.
    um abraço,
    virna

    Comment by Virna — July 28, 2006 @ 12:37 pm

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