Victoria station

cotovelos sobre o braço da cadeira,
consulta o mínimo relógio de pulso:

nove e vinte. tem os cílios tremendo
num cacoete seguido e os letreiros piscando
regulam a chegada dos trens. o postal com um
urso branco dizia quarta-feira vs.
o ponto de encontro é cada vez mais distante,
você pode estar num quarto de hotel ou numa
estação, “chego sempre fora da hora”. ele me disse
que sabia, foram anos fugindo da chuva
“ficava na última cadeira contando os segundos
antes da partida.” essa é a única
maneira de estar entre.

podia levantar num movimento perpétuo,
cabeça erguida e um bilhete: eis a senha.
(assim fugia a silhueta da mulher de costas)
a essa altura podia ser um silêncio maquinal,
mas o ruído na hora de dizer e os largos dedos
apontando tornavam
qualquer fuga impossível

Marília Garcia

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