31. 05. 2010
às 22:42horas.

Louise Bourgeois morreu? Não, ela já era imortal.
"até segunda ordem não me risque nada."
Lançamento
O escritor e diplomata João Almino estará de passagem pelo Brasil para o lançamento do seu livro “Cidade Livre” (editora Record).
Dia 1/6, terça-feira, às 19h, na Livraria Cultura (Loja da Record). Av. Paulista, 2073.
Entrevista
Fui entrevistada pela Diana de Hollanda para o Fórum Virtual de Literatura e Teatro da UFRJ. Sobre neurologia, poesia, deslocamentos & os próximos projetos.

O Jardim do Interrogador. Paula Rego, 2000 (pastel sobre papel).
A Fundação de Vítimas para a Tortura pediu-me para fazer qualquer coisa que eles pudessem vender, e contaram-me a história de uma rapariga que tinha sido presa. É uma história horrível; ela só se salvou porque o tio dela subornou os guardas para que estes a levassem num caixote de lixo e a despejarem no meio de uma lixeira…E eu pensei “é isso que vou fazer, vou fazer o jardim desse interrogador, onde ele trata de suas flores”. E então pensei, “olha que giro, Lila, vais-te vestir de inquisidor”. Ela então encheu-se de enchumaços e eu fui comprar as luvas de jardinagem e as outras coisas, e ali está ela.
“Então isto é uma espécie de tragicomédia”, observa o entrevistador. “Sim, ou uma espécie de gozo, se preferir”, responde a artista.
Atacar o privilégio e autoridade por meio do “gozo” é, evidentemente, a a arma da sátira; e o uso da inversão de estatuto ou de género como forma de compensação simbólica é o ofício comum nos rituais de inversão tais como eles tradicionalmente ocorrem durante o carnaval ou nas festividades estivais (…) Um ofício como este tem que ser visto, na contexto da obra de Paula Rego, como partilhando de uma estratégia consciente de subversão: “os meus temas favoritos”, comentou ela, “são os jogos provocados pelo poder, o domínio e as hierarquias. Dá-me sempre vontade de pôr tudo de pernas para o ar, desalojar a ordem estabelecida, alterar as heroínas e os imbecis”.
(…) Tenho fortes sentimentos políticos acerca das mulheres, acho que o mundo está a tornar-se de novo mais masculino. Como pintora, penso que há sempre uma história para contar que ainda não foi contada”.
Ruth Rosengarten
Em: Contrariar, esmagar, amar. A Família e o estado Novo na obra de Paula Rego. Assírio & Alvim, 2009

Fernando Taborda. Estrada da vida, 1954.
SE A NOITE CAÍSSE AGORA DESENHANDO A SUA LUZ
Se a noite caísse agora desenhando a sua luz
escassa / dissimulando a tristeza
das mãos / um fósforo
dançasse como um relâmpago
indiscritível no olhar / perdido
na dor do silêncio / os
pés alargassem o horizonte até à pureza
inconcebível do sofrimento / se
a boca fosse um íman
ou um archote punindo o vinco das convicções
na pele coberta de sal
as aves debicassem as infinitas
trevas do teu nome / do nome espesso
da escuridão
uma árvore, apenas uma árvore, bastaria
para te salvar.
Jorge Velhote
(poema lido pelo autor durante o Festival Tordesilhas, no dia 5 de maio)

Uma reflexão sobre a beleza eterna, interrompida pela visão do efêmero
A harmonia que, para os clássicos, exprimia a relação
das partes com o todo, atravessou os milênios sem alterar
o equilíbrio do homem no centro da sua esfera. Esse
homem, com a sua representação simétrica, define-se
a partir de um universo que tem limite
na compreensão divina da matéria
e do espírito. E poderia continuar assim, se
não ouvisse um copo a partir-se no fundo
da casa – alguém que se distraiu, e que rompeu,
de súbito, o meu raciocínio. Ao mesmo tempo,
porém, descobri que nada do que eu pensava
era original; e só ao apanhar do chão os vidros
partidos, um brilho breve no seu contacto com
a luz me fez pensar que, afinal, a harmonia
também nasce da destruição, e o centro da esfera
desloca-se para o fragmento que seguro com
os dedos, antes de o deitar para o lixo.
Nuno Júdice
Em: Guia de Conceitos Básicos, Ed. D. Quixote, 2010.
Tordesilhas - retrospectiva

Com Ruy Ventura, Eduardo Jorge e João Miguel Henriques, no recital do dia 7/5.
Foi um grande êxito a realização da edição portuguesa do Festival Tordesilhas, que ocorreu de 5 a 7 de maio em Lisboa. Apesar da distância e do pouco tempo que tivemos para organizar o evento, tivemos um ótimo apoio da Embaixada do Brasil em Portugal e um acolhida muito profissional e calorosa da Casa Fernando Pessoa, onde ocorreu o encontro. Participei do evento junto com os poetas Claudio Daniel, Horácio Costa e Eduardo Jorge, e também com a poeta Simone Homem de Mello, que vive em Berlim.
A abertura, dia 5, contou com a presença da diretora da Casa Fernando Pessoa, Inês Pedrosa e prosseguiu com um debate sobre o diálogo literário entre Brasil e Portugal, com Horácio Costa, Claudio Daniel e Casimiro de Brito. Em seguida, houve um belo recital com os poetas portugueses Nuno Júdice e Jorge Velhote, com a Simone Homem de Mello e o Horácio Costa. Logo após, leitura com Casimiro de Brito e um coquetel oferecido pela Casa.
No dia 6, os destaques foram a discussão sobre poesia africana, da qual participaram Delmar Maia Gonçalves e Jorge Viegas, de Moçambique e Jorge Arrimar de Angola, com moderação do Claudio Daniel; a leitura da poeta portuguesa Catarina Nunes de Almeida; e a exibição do video-poema “San Pedro” do Eduardo Jorge. No dia 7, participei de uma mesa sobre poesia e internet com o João Miguel Henriques e o Eduardo Jorge. Prosseguimos depois com um recital, junto com o poeta Ruy Ventura. Houve em seguida a exibição do vídeo “Cidade Resposta”, do Márcio-André (Brasil), e uma apresentação muito simpática da plaquete “Entulho”, do João Miguel Henriques, publicada pela Arqueria Editorial. Ocorreram também lançamentos, vendas de livros e distribuição das revistas brasileiras Poiesis e Coyote durante o encontro.
O clima do Tordesilhas foi muito informal e amigável, com boa interação do público. Gostaria de agradecer a todos que divulgaram e participaram do encontro, ao João Miguel Henriques (que esteve no Tordesilhas em São Paulo em 2007) pelo apoio e amizade, a alguns poetas que se deslocaram até Lisboa - como o Jorge Velhote, Ruy Ventura e Jorge Melícias - que esteve no festival mas teve que ir embora às pressas, por causa do nascimento do seu filho. Um sinal auspicioso! Agora é aguardar e colher os frutos.
Coloquei algumas fotos no site do Festival. O crédito das fotos é do Eduardo Jorge, responsável também pelo logo e pela criação artística do Tordesilhas, e da Casa Fernando Pessoa.