27. 04. 2010
às 21:56horas.

XI. VIRGINIA
Desde o início soube. Na verdade desde ontem, desde antes. Mas me limitei a observá-los, enquanto me aplicava nos cálculos para que não se emaranhassem os destinos nem se equivocassem os ângulos entre os planetas, as cúspides, os luminares. Embora nem sempre me ouvissem, falava assim mesmo. Dizia de Netuno embaçado, tornando ainda mais sangrenta a fúria de Marte, do movimento maléfico de Mercúrio, unido à Lua para obscurecer a luz do Sol, do brilho mais forte de Vênus em sua Casa, trazendo à tona as funduras de Saturno. Sobre todos, pairava Urano, a estimular o presságio da estranha abundância provocada por Júpiter, enquanto mais longe, por trás da consciência, como o jorro de lava dos vulcões, Plutão faria explodir o pus de todas as feridas. Dependeria de nosso exercício de alquimia saber transmutar o gosto nojento desse visgo amarelo em outro sabor mais limpo.
Para isso estávamos ali, em teste. Sem passado nem futuro, suspensos. Mas a mim não importava o que se fora. Queria o passo à frente. Além ainda de inesperadas sinastrias, bizarras quadraturas das quais vinha tentando inutilmente avisá-los tanto tempo antes. Respeitavam a isso que chamam de minha “loucura’ mas solicitavam-me às vezes, pobremente, quando seus amores se complicavam, quando seus bens se perdiam, ainda que cinco minutos depois já não lembrassem minhas palavras. Que talvez não sejam definitivas, mas buscam sempre por essa região que entre a larva e a borboleta acontece num segundo no interior da crisálida para anunciar um próximo e possível vôo numa vida que não durará mais que um dia, de tão perfeita se armou. Porque não quero voltar outra vez a este plano de movediços terrenos enganosos. Sei bem de mim que, quando o sol encontrar novamente meu sol, talvez no próximo verão, também estarei partindo. Completa.
(…)
Caio Fernando Abreu
Décimo primeiro fragmento da décima terceira voz. No conto “Dodecaedro”, sobre os doze signos do zodíaco (XI representado pelo signo de aquário). Segundo o autor, este conto reúne o inconsciente e o caos de Peixes, que contém em si todos os outros signos. Ao longo da narrativa, Caio atribuiu um nome/ personagem a cada fragmento (signo). Virginia provavelmente representa a visionária escritora Virginia Wolf, que era aquariana. Em: O Triângulo das Águas. Ed. Nova Fronteira, 1983.






