"até segunda ordem não me risque nada."



29. 11. 2008
às 18:44horas.

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Cena do filme “Quatro casamentos e um funeral”

FUNERAL BLUES

Stop all the clocks, cut off the telephone.
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling in the sky the message He is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever, I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun.
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.

BLUES FÚNEBRE

Detenham-se os relógios, cale o telefone,
jogue-se um osso para o cão não ladrar mais,
façam silêncio os pianos e o tambor sancione
o féretro que sai com seu cortejo atrás.

Aviões acima, circulando em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: Ele Morreu.
Pombas de luto ostentem crepe no pescoço
e os guardas ponham luvas negras como breu.

Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto
meus dias úteis quanto o meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
julguei o amor eterno: quem o faz se engana.

Apaguem as estrelas: já nenhuma presta;
Guardem a lua; o sol se arrie, nem se levante.
Despejem todo o oceano e varram a floresta.
Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante.

W. H. AUDEN

Tradução: Nelson Ascher

O poema de W.H.Auden “Funeral Blues” ficou famoso quando foi lido pelo ator John Hannah no filme Quatro Casamentos e um Funeral. Este poema foi originalmente escrito por Auden em parceria com o compositor Benjamin Britten, que o musicou sob a forma de um blues paródico para ser cantado como uma canção de cabaret por Hedli Anderson.
Nelson Ascher traduziu Funeral Blues para a Folha de São Paulo, que foi publicado na antologia Poesia Alheia em 1995. Esta é uma nova versão em português, revisada recentemente pelo tradutor.

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25. 11. 2008
às 23:12horas.

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L’AS DE TRÈFLE

Elle joue comme nul ne joue et je suis seul à regarder. Ce sont ses yeux qui la ramènent dans mes songes. Presque immobile, à l’aventure.
Et cet autre qu’elle prend par les ailes de ses oreilles a gardé la forme des ses auréoles. Dans l’accolade de ses mains, une hirondelle aux cheveux plat se débat sans espoir. Elle est aveugle.

O ÁS DE PAUS

Ela joga como ninguém joga e estou só a observar. São seus olhos que a trazem nos meus sonhos. Quase imóvel, à aventura.
E aquela outra que ela pega pelas asas de suas orelhas guardou a forma de suas auréolas. Na concha de suas mãos, uma andorinha de cabelos achatados se debate sem esperança. Ela está cega.

Paul Éluard

Tradução: Virna Teixeira

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18. 11. 2008
às 12:14horas.

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CRÔNICA PARCIAL DOS NOVENTA

Cruzemos os dedos ainda que não seja o verão do amor
_____nem a era de aquário
ninguém lhe supreende nada nem estes anos bêbados
_____e aborrecidos
acalentados pelo século quem ia saber o que
_____vinha a liberdade
foi nuvem passageira e hoje caem ácidos do céu
não houve tempo de verdade não havia tempo
mais do que para nascer e acostumar-se
às capas de revista
jamais tivemos cenário um patíbulo de agulhas
afiadas na garganta da histeria
ocupados na virginindade já não derrubaram muros
em vez disso as telas nos gritavam
ligue agora o poeta de seu estilo na linha
e houve disparos moedas que caíam
na profundidade do coração
Fidel Fujimori Pinochet os dinossauros
de Spielberg e outros filmes terríveis
viagra camisetas do Che no paredão
todos comentavam pobre Magic Freddy Mercury
cantará pela última vez em Barcelona e nós tão bêbados
aborrecidos certos que aqui não aconteceu nada.

CRÓNICA PARCIAL DE LOS NOVENTA

Crucemos los dedos aunque no es verano del amor
_____ni era del acuario
a nadie le sorprende nada ni estos años borrachos
_____y aburridos
arrullados por el siglo quién iba a saber lo que
_____venía la libertad
fue nube de paso y hoy caen ácidos del cielo
no hubo tiempo de veras no había tiempo
más que para nacer y acostumbrarse
a las portadas de revista
jamás tuvimos escenario un patíbulo de agujas
afiladas en el cuello de la histeria
ocupados en la virginidad ya no se derribaron muros
a cambio las pantallas nos gritaban
llame ahora el poeta de su estilo en línea
y hubo disparos monedas que caían
a la profundidad del corazón
Fidel Fujimori Pinochet los dinosaurios
de Spielberg y otras películas malísimas
viagra camisetas del Che en el malecón
todos comentaban pobre Magic Freddy Mercury
cantará por última vez en Barcelona y nosotros tan borrachos
aburridos seguros de que aquí no pasó nada.

Francisco Alcaraz

Tradução: Virna Teixeira

O poema “Crônica Parcial dos Noventa” faz parte da antologia “La luz que va dando nombre” que será apresentada hoje por Jair Cortés na Casa das Rosas às 19h30min.

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15. 11. 2008
às 13:25horas.

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Foto (pinhole): Zaneir Gonçalves

costumo freqüentar suas moradas com reverência e temor. para não arrastar os móveis e poder acordar alguém. alguém que mora num sobrado bonito como sempre sonhou meu pai. ao mesmo tempo, tirei o dia para ver os cargueiros que atracam no porto raso da minha cidade. há uma história patética e desordenada aí. mas não é hora de contá-la. tomara consiga acordar tranqüilo amanhã, pois me aguarda uma manada de búfalos e porcos-espinhos. mas não se diz manada de porcos-espinhos, mesmo no sentido mais figurado. o máximo que posso é me desculpar. ainda mais quando piso a madeira nova da sala com a planta dos pés entornada de piche, algas, que formam uma crosta em mim, que retirarei com uma faca, que cortarei os dedos. e tudo isso me trará esse sufoco, uma contrapartida a esta manhã tão clara que me atravessa em cheio a ampla vidraça em um sétimo andar da esplanada dos ministérios. aproveito para revelar que há um automóvel utilitário circulando nas vias principais. o mais novo segredo da indústria automobilística maltrata os olhos com um amarelo aberrante. vejo fagulhas e pólvora e marcas de pneu. tudo faz sentido. você percebe?

Carlos Augusto Lima

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15. 11. 2008
às 01:45horas.

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Foto: Jair Cortés e Manuel R. Montes

À CONTRALUZ - POESIA E PROSA MEXICANA

18 de novembro

Debate sobre poesia mexicana com o poeta Jair Cortés. Apresentação da antologia La Luz Que Va Dando Nombre com recital bilingue. Apresentação da antologia Caos Portatil e dos livros Distancia (de Virna Teixeira, Editorial Lunarena) e Flor de Abssinia (Adriana Zapparolli, Lumme Editor)
Participação: Berenice Huerta, Virna Teixeira e Edson Cruz (Cronópios)

19 de novembro

Debate sobre prosa mexicana com o escritor Manuel R. Montes, editor da revista de prosa e peosia Cabeza de Moro.
Participação: Sérgio Molina (editora 34), Virna Teixeira e Rodrigo Rosa

Horário: 19h30min
Local: Casa das Rosas
Avenida Paulista, 37
Apoio: Consulado do México e Instituto Cervantes

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11. 11. 2008
às 12:34horas.

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SACRIFÍCIO

OU

AS CINZAS DE ALICE

“This must be the wood”, she said thoughtfully to herself, “where things have no names. I wonder what´ll become my name when I go in? (…).”
Lewis Carroll: Alice in Wonderland

1. OS CAMINHOS DO BOSQUE

1.1. “O vento é um pente”, diz Alice.

1.2. Um galho sai da visão como mecha crespa afastada de um olho.

1.3. “O vento tem garras e nariz.”

1.4. “O vento abre a folhagem como uma gaiola”, diz Alice, afastando folhas dos olhos.

1.5. O vento empurra as espreguiçadeiras brancas para perto da lagoa: vistas de longe, são como chinelos de plástico.

1.6. A folha do tamanho de uma barata roda e salta veloz.

1.7. A folha se mexe no chão, velha axila sem braço.

1.8. A luz reaparece como longas pernas de uma aranha nas nuvens.

1.9. A nuvem escura ganha súbitos ossos claros, visíveis no fim do dia — esquelética, seca.

1.10. As sombras empurram para a frente a cerca iluminada qual faixa que levassem esticada.

1.11. Fervilham as palmeiras como um desenho de repente preenchido energicamente de riscos.

1.12. O banco feito de pedaços escuros é, visto de costas, um ideograma chinês entre troncos caídos.

1.13. O céu clareado, enorme folha azulada com um veio luminoso (que se desloca levemente) no meio.

1.14. Logo atrás dos ramos, porém, o nevoeiro.

1.15. Logo atrás dos ramos, nevoeiro sem ar.

1.16. O bosque engasgado, flores vermelhas, rubras.

1.17. As borboletas caem pesadas como cascas de fruta.

1.18. Como tomate maduro, uma bola redonda no mato.

1.19. Logo atrás dos ramos parados, o nevoeiro parado.

Sérgio Medeiros

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07. 11. 2008
às 19:17horas.

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Louise Bourgeois

como suturar lembranças

dias cor-de-rosa e azuis
vestidos frágeis sobre
cabides de ossos
omoplatas

equilibrar extremos

na costura do tecido

os carretéis
tecendo a
seda

Virna Teixeira

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05. 11. 2008
às 20:57horas.

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Raymond Moore. Pembrokeshire, 1964

intimidade

a solidão não me assusta
temos o que dizer uma à outra
nenhuma de nós conhece bem
suas margens

Paula Padilha

Em: Tempo Inteiro. Bem-te-vi, 2007.

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04. 11. 2008
às 07:40horas.

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“o milagre de andar na superfície das águas sem afundar”

Samson Flexor, 1961

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02. 11. 2008
às 12:08horas.

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In a Classroom

Talking of poetry, hauling the books
arm-full to the table where the heads
bend or gaze upward, listening, reading aloud,
talking of consonants, elision,
caught in the how, oblivious of why:
I look in your face, Jude,
neither frowning nor nodding,
opaque in the slant of dust-motes over the table:
a presence like a stone, if a stone were thinking.
What I cannot say, is me. For that I came.

Em uma Sala de Aula

Ao falar de poesia, arrastando a pilha
de livros até a mesa onde as cabeças
curvam-se ou erguem-se, ouvindo, lendo em voz alta,
falando de consonantes, elipses,
apanhada no como, esquecida do porquê:
vejo seu rosto, Jude,
sem franzir ou menear,
opaco na través das linhas de pó sobre mesa:
uma presença como pedra, se uma pedra pensasse.
O que não posso dizer, sou. Para isso vim.

ADRIENNE RICH

Tradução: Ruy Vasconcelos

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