29. 07. 2008às 13:16horas.

11
I’m Nobody! Who are you?
Are you — Nobody — Too?
Then there’s a pair of us?
Don’t tell! They’d advertise — you know!
How dreary — to be — Somebody!
How public — like a Frog —
To tell one’s name — the livelong June —
To an admiring Bog!
(c. 1861)
11
Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!
Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!
Emily Dickinson
Tradução: Augusto de Campos
Augusto de Campos acaba de publicar a antologia de traduções de poemas de Emily Dickinson, “Não sou ninguém”, pela editora UNICAMP. O tradutor comenta sobre o seu trabalho no Cronópios.
28. 07. 2008às 10:53horas.
A corcova calva do camelo
me traz o desejo
de incendiar as vogais
e ruminar as cinzas arenosas.
Como a alma acalma o coração?
Talvez com dromedários.
Ângela de Campos
Feixe de Lontras, 7 Letras, , 1997
27. 07. 2008às 14:26horas.
27. 07. 2008às 14:19horas.
A poesia, ela traz consigo esse caráter assim meio de, como é que eu vou dizer? Uma coisa meio masoquista. Você se dedicar dez anos a vender banana, montar uma banca para vender banana ou repolho, você vai ganhar muito mais que fazendo poesia. A poesia não te dá nada em troca. Chego, às vezes, a suspeitar que os poetas, os verdadeiros poetas, são uma espécie de erro na programção genética. Aquele produto que saiu com falha, assim, entre dez mil sapatos um sapato saiu meio torto. É aquele sapato que tem consciência da linguagem, porque só o torto sabe o que é direito.
…
Pensando nas relações entre poesia e linguagem, entre paixão, poesia e linguagem, formulei a coisa de que a poesia seria uma manifestação, sobretudo, de paixão pela linguagem, por causa do próprio caráter substantivo da poesia. Um poema não é como um conto, não é como um romance. Um conto, um romance são transparentes, deixam o olhar passar até o sentido. Na poesia, não. O olhar não passa, o olhar pára nas palavras. Um romancista, um romancista típico, um ficcionista, pra ele, a palavra não é o valor fundamental, sua música, sua forma, suas relações com outras palavras não é essencial. O essencial é a escrita que ele está contando.
Paulo Leminski
Extraído do ensaio “Poesia: a paixão da linguagem”. Em: Os Sentidos da Paixão. Funarte/ Cia da Letras, 1987.
19. 07. 2008às 22:51horas.

I saw a man pursuing the horizon
I saw a man pursuing the horizon;
Round and round they sped.
I was disturbed at this;
I accosted the man.
“It is futile”. I said,
“You can never -”
:You lie”, he cried,
And ran on.
Eu vi um homem perseguindo o horizonte
Eu vi um homem perseguindo o horizonte;
Giravam e giravam à toa.
Aquilo me perturbou;
Aproximei-me do homem.
“É tolice,” murmurei,
“Você jamais poderá…”
“Você mente”, gritou ele,
E continuou correndo.
Stephen Crane
Tradução: Jorge Wanderley
Em: Antologia da Nova Poesia Norte-Americana. Ed. Civilização Brasileira, 1992.
16. 07. 2008às 10:30horas.

A bitter pill: the Damien Hirst installation, Pharmacy. Tate Modern, 2001.
Me deu uma dor forte de repente e eu disse — me leva para o hospital.
O casal do lado me levou no carro.
Tinha fila na emergência. Eu fiquei chorando e espiando a folia que não quero contar como é que era. Quando voltei ele estava pálido e contou que tinha desmaiado.
Ele é tão grande e mesmo com dor eu ia pôr no colo. Fiquei sabendo melhor como é o desmaio.
Você não apaga — acende uma velocidade de sonho sólido, e você vê Tudo num minuto. Até a sala de ópio com Fats Waller cantando Two Sleepy People em câmera bem lenta: no coração de Paris uma câmara de sonho oriental, tapetes persas fechando as paredes e almofadas fechando os olhos como no paraíso. Você pode também sentar de novo na Place des Vôges, que é perfeita, cartão postal mágico voador. Parece que você vê e pega, ou fica completamente dentro. Não é uma esponja nem uma bagatela. Até a travessia do canal, ou a primeira vez que alguém te cobriu de beijos, ou o nervoso de perder o trem por dois minutos. É um cinema hipnótico, sem pernas. Não é vago.
Ana Cristina César, em “Luvas de Pelica”.
15. 07. 2008às 08:59horas.
Lembro-me de que a vida, naquele quarto, parecia estar ocorrendo sob a superfície do mar, o tempo passava indiferentemente por cima de nós e as horas e os dias não tinham qualquer significação. No início, nossa vida teve uma alegria e espanto que renasciam todos os dias. Por baixo da alegria, naturalmente, existia angústia e por baixo do espanto encontrava-se o medo, mas eles não se apresentavam no começo, até que esse nosso grande início se tornasse fel em nossas bocas. A essa altura, a angústia e o medo tornaram-se a superfície em que escorregávamos e caíamos, perdendo o equilíbrio, o amor-próprio e o orgulho. O rosto de Giovanni, que eu ficara conhecendo tão bem todas as manhãs, dias e noites, endureceu-se diante de meus olhos, começou a ceder em lugares secretos, começou a rachar. A luz em seus olhos tornou-se um brilho fraco, a fronte ampla e bela principiava a sugerir o crânio ósseo que tinha por baixo. Os lábios sensuais voltavam-se para dentro, levados pela tristeza que transbordava do seu coração, Tornara-se o rosto de um desconhecido - ou de tal forma fazia-me sentir culpado, que eu desejava fosse o rosto de um desconhecido. Nem todas as minhas recordações prepararam-me para a metamorfose que elas próprias ajudavam a realizar.
James Baldwin
Em: Giovanni, editora abril, 1981. Tradução: Affonso Blacheyre
15. 07. 2008às 08:47horas.
14. 07. 2008às 14:31horas.

Film still. Cindy Sherman.
film still # 2
ensaio voyeur da câmera, arranha-céu ao fundo
tailleur, scarpins e colarinho
uma garota em apuros, o boulevard vazio
pressa dos passos ou cerco da presa?
ensaia golpes imaginários - jab, upper, cruzado
de luvas vermelhas, round livre
marilyn na musculação, halteres
Virna Teixeira
12. 07. 2008às 23:31horas.

Lisa Lyon. Foto: Robert Mapplethorpe
CONSEQÜÊNCIAS
Você me marcou
a fogo e a ferro.
Agora durma com meus berros.
Leila Míccolis
Acaba de sair a M(AI)S - A Antologia de Literatura Sadomasoquista Brasileira organizada por Antônio Vicente Pietroforte e Glauco Mattoso, pela editora DIX. O lançamento da antologia está previsto para agosto, mas o livro já estará à venda na ABRALIC próxima semana.