"até segunda ordem não me risque nada."



30. 04. 2008
às 18:41horas.

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Raffaelo Sanzio. Afresco (detalhe), A Escola de Atenas, 1511.

HERÁCLITO

Heráclito diz que uma alma árida é melhor e mais sábia.
Heráclito está inegavelmente
certo nestas questões. Estes
brilhantes trapos de sabedoria, jogados
sobre espuma e tumulto sombrio deveriam pelo menos render
algumas visões e reflexões, um facho de luz
de corte transversal como uma barbatana
espalhada contra o fluxo do mar
ou anelada na crista da onda.

Uma alma árida: o que é o mesmo que dizer
tostada no forno, curada como boa madeira ou velho Bordeaux
porco salgado e defumado, carne da alma
sob a cereja silvestre,
________________luz do sol
e sal do mar preparado no grão.

II

Heráclito diz algo para concordar-se – não
como um torno de carpinteiro ou atados
troncos, como em Homero.
Harmonia com um dorso inclinado,
cinza laminada em pé como uma quilha caída, o caracol
de cinco corpos no fogo, fletidos
como a alma entre músculo e osso, como
o arco, como a lira.

III

Todas as coisas são permutáveis por
fogo e o fogo por todas as coisas
Como ouro por bens e bens por ouro,
ou assim canta o velho
__________Heráclito

IV

Heráclito diz algo que não pode ser colocado
em prosa, embora o Bispo Hipólito comente
como se fosse prosa. Esta é a sua essência:

imortais mortais são mortais imortais
a respiração de um é a morte do outro
a morte de um é a vida do outro
mortais são eternos, os eternos são mortais
vivendo no corpo a morte de um outro,
morrendo no ar, terra e fogo, concebendo

o outro, a completa
encarnação

V

Vento espalha suas cinzas.

HERAKLEITOS

I

Herakleitos says a dry soul is wisest and best.
Herakleitos is undeniably
right in these matters. These
bright tatters of wisdom, cast
over grey welter and spume should at any rate yield
a few visions and reflections, a little light
cutting crosswise like a fin,
splayed against the sea’s grain
or annealed on the wave crest.

A dry soul. Dry: that is to say
kiln-dried, cured like good lumber or old Bordeaux,
salt-pork and pemmican, meat of the soul
under the chokecherry,
________________sunlight
and sea-salt arrayed in the grain.

II

Herakleitos says something of concord - not
like a carpenter’s clamp or lashed
logs, as in Homer.
Harmony with an arched back,
laminated ash upended like an unlaid keel, the curl
of five flesh in the fire, flexed
like the soul between muscle and bone, like
the bow, like the lyre.

III

All things are exchangeable for
fire and fire for all things,
like gold for goods and goods for gold,
or so sings old
__________Herakleitos.

IV

Herakleitos says something which cannot be put
into prose, though the Bishop Hippolytus quotes
it as though it were prose. Its essence is this:

mortal immortals are immortal mortals,
the breath of the one is the death of the other,
the dying of one is the life of the other:

mortals are deathless, the deathless are mortals,
living in the body the death of the other,
dying into air, earth and fire, siring

the other, the utter
incarnation.

V

Wind stirs his ashes.

ROBERT BRINGHURST

Tradução: Virna Teixeira

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27. 04. 2008
às 19:39horas.

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© Nan Goldin

magnólia

o quarto distorcido em pensamento
visto do eclipse sobre o telhado
na confusão do sonho

tâmaras,
bosque vermelho na luz tardia

Virna Teixeira

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26. 04. 2008
às 20:05horas.

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Richard Billingham:

‘my father raymond is a chronic alcoholic.
he doesn’t like going outside, my mother elizabeth hardly drinks,
but she does smoke a lot.
she likes pets and things that are decorative.
they married in 1970 and I was born soon after.
my younger brother jason was taken into care when he was 11,
but now he is back with ray and liz again.
recently he became a father.
‘dad was some kind of mechanic, but he’s always been an
alcoholic. it has just got worse over the years.
he gets drunk on cheap cider at the off license.
he drinks a lot at nights now and gets up late.
originally, our family lived in a terraced house,
but they blew all the redundancy money and, in desperation,
sold the house. then we moved to the council tower block,
where ray just sits in and drinks.
that’s the thing about my dad, there’s no subject he’s interested
in, except drink.’

‘it’s not my intention to shock, to offend, sensationalise,
be political or whatever, only to make work that is as spiritually
meaningful as I can make it -
in all these photographs I never bothered with things like
the negatives. some of them got marked and scratched.
I just used the cheapest film and took them to be processed
at the cheapest place. I was just trying to make order out of chaos.’

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24. 04. 2008
às 10:48horas.

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Acervo Instituto Moreira Salles

COMO RASURAR A PAISAGEM

a fotografia é um tempo morto
fictício retorno à simetria
secreto desejo do poema
censura impossível
do poeta

Ana Cristina César

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21. 04. 2008
às 21:07horas.

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Cenas de abril, 1979. Acervo Ana Cristina Cesar / Instituto Moreira Salles

O que o motivou a fazer de Ana C. seu objeto de estudo? Como a “descobriu”?

Desde que pisei no Brasil e na língua portuguesa, por assim dizer, me interessei pela poesia brasileira. No entanto, confesso que demorei um pouco a entrar na obra de Ana Cristina César, que li num primeiro momento de forma superficial, talvez até preconceituosa: de um lado vítima dos hábitos clássicos da literatura, desprezando a superficialidade “marginal”, o tom confessional sem distância, pouco exigente… Por outro lado, o texto não deixava de instigar. Ensaiando algumas traduções de seus poemas, com uma amiga. Pauline Alphen, fui descobrindo aos poucos toda a sutileza do texto, o humor, os “segredos”… Ainda hoje, depois de anos de convívio com essa obra, ela continua me surpreendendo e me comovendo. Um texto como Luvas de Pelica, que parece à primeira vista um jorro caótico, descontrolado, se revela na verdade extremamente planificado, organizado, e repleto de referência aos autores que ela lia. Basta fazer um levantamento das variações entre as edições “marginais” de Cenas de Abril, Correspondência Completa e Luvas de Pelica, e a reedição desses textos em A Teus Pés (Brasiliense, 1982) para se convencer do esmero meticuloso dessa escrita, nem um pouco displicente.

No entanto quando falo da poesia da Ana Cristina, ainda hoje, continuo muitas vezes esbarrando com certas resistências: ou uma certa desqualificação achando tratar-se de uma poesia barata (avaliação que abarca toda a poesia “marginal”, mas que precisa ser reconsiderada com leituras detalhadas, diferenciadas), ou uma certa apreensão causada pelo aspecto desconcertante dos textos. Houve trabalhos pioneiros, como o artigo de Silviano Santiago (”Singular e Anônimo”) ou a tese de Maria Lúcia de Barros Camargo; continua se publicando e se estudando muito essa obra, porém me parece que a poesia da Ana Cristina ainda não foi posta no seu devido lugar, de excelência, de grande novidade e inventividade.

Entrevista com o professor Michel Riaudel, estudioso e trdautor da obra de Ana Cristina César para o francês. Por John Milton, Marina Della Valle e Telma Franco. Cadernos de Literatura em Tradução, número 8, 2008.

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15. 04. 2008
às 09:40horas.

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Richard Billingham

The drunk

I have stayed up all night
I have gobbled my meals,
I have burned my lips, smoking,
I have muttered “But, but…”,
I have gone to the office
With different coloured socks
And my fly buttons open

I have heard voices above the traffic
Skalds reciting before Ling Olaf –

And
I haven’t touched a drop for months

O bêbado

Tenho passado a noite em claro
Tenho engolido minhas refeições,
Tenho queimado meus lábios, fumando,
Tenho murmurado “ mas, mas…”,
Tenho ido ao escritório
Com meias de cores diferentes
E os botões das calças abertos

Tenho ouvido vozes sobre o tráfego
Bardos recitando diante do Rei Olavo –

E
Não tenho bebido nada faz meses

GAEL TURNBULL

Tradução: Virna Teixeira

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13. 04. 2008
às 14:32horas.

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XIII

Cenabis bene, mi Fabulle, apud me
paucis, si tibi di favent, diebus,
si tecum attuleris bonam atque magnam
cenam, non sine cândida puella
et vino et sale et omnibus cachinnis.
Haec si inquam attuleris, venuste noster,
cenabis bene: nam tui Catulli
plenus sacculus est aranearum.
Sed contra accipies meros Amores
seu quid suavius elegantiusve est:
nam unguentum dabo, quod meae puellae
donarunt Veneres Cupidinesque,
quod tu cum olfacies, deos rogabis,
totum ut te faciant, Fabulle, nasum.

XIII

Vem jantar comigo, Fábulo,
em breve, se os deuses te favorecem,
se trouxeres contigo boa e farta ceia
e também uma bela moça,
vinho, sal e as risadas de todos.
Se trouxeres isto, caro amigo,
jantarás bem: pois teu Catulo
tem o odre cheio de aranhas.
Mas em troca terás Afeto puro
ou algo ainda mais suave e distinto:
o perfume que Amores e Cupidos
puseram em minha namorada.
Irás senti-lo, Fabulo, e rogarás aos deuses
que te façam nariz por inteiro.

CAIO VALÉRIO CATULO

Tradução: Contador Borges

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12. 04. 2008
às 19:30horas.

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FESTA DE LANÇAMENTO

“Cadernos de Literatura em Tradução” número 8
Dia 17 de abril, a partir das 19h
Finnegan’s Pub
Rua Cristiano Viana, 358
Pinheiros, São Paulo-SP

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12. 04. 2008
às 19:26horas.

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Décio Pignatari, 1963

AUREAMUSARONDINAALÚVIA
(Um Tributo à Poesia Concreta)

Dia 15 de abril, 19h30
Recital com Lenora de Barros, Frederico Barbosa, Claudio Daniel, Ricardo Aleixo, Mônica Costa, Yun Jung Im, Michel Sleiman, Elson Fróes, Marcelo Tápia, Lúcio Agra.
Casa das Rosas

Dia 16 de abril, das 14 às 15h30
Palestra de Boris Schnaiderman. Apresentação: Frederico Barbosa.
Sala 107 da FFLCH (USP)

Dia 17 de abril, das 14h às 17h
Debate: A Poesia Concreta e a Crítica Literária Brasileira
Com Roberto Zular e Antônio Vicente Pietroforte. Mediação: Aurora Bernardini.
Sala 107 da FFLCH (USP)

Dia 18 de abril, às 19h30
Encerramento: Show de Edvaldo Santana
Apresentação dos vídeos Poetas de Campos e Espaços e Galáxia Haroldo.
Casa das Rosas

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10. 04. 2008
às 18:22horas.

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Talco, Matisse, 1978. Waltércio Caldas.

s/título.

tudo se movimenta mudo
sabe-se pouco da velocidade do ar
que nos escapa –

palavras n’uma página opaca
morta sobre a mesa: faca
enterrada no branco

a mesma ameaça – frágil
são os olhos ainda frios.

Victor da Rosa

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