"até segunda ordem não me risque nada."



26. 02. 2008
às 09:33horas.

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Battle of Glen Fruin, 1602

From a City Balcony

How often when I think of you the day grows bright!
Our silent love
wanders in Glen Fruin with butterflies and cuckoos –
bring me the drowsy country thing! Let it drift above the traffic
by the open window with a cloud of witnesses –
a sparkling burn, white lambs, the blaze of gorse,
the cuckoos calling madly, the real white cloud over us,
white butterflies about your hand in the short hot grass,
and then the witness was my hand closing on yours,
my mouth brushing your eyelids and your lips
again and again till you sighed and turned for love.
Your breast and thighs were blazing like the gorse.
I covered your great fire in silence there.
We let the day grow old along the grass.
It was in silence that love was.

Footsteps and witnesses! In this Glasgow balcony who pours
such joy like mountain water? It brims, it spills over and over
down to the parched earth and the relentless wheels.
How often will I think of you, until
our dying steps forget this light, forget
that we ever knew the happy glen,
or that I ever said, We must jump into the sun,
and we jumped into the sun.

De uma Varanda da Cidade

Quantas vezes quando penso em você o dia se ilumina!
Nosso amor silencioso
vagueia no Glen Fruin com borboletas e cucos –
me traz a sonolência do campo! Deixe que flutue sobre o tráfego
pela janela aberta com uma nuvem de testemunhas –
uma queimadura cintilante, ovelhas brancas, a chama do junco,
os cucos chamando loucamente, a nuvem branca real sobre nós,
borboletas brancas sobre a sua mão na curta grama quente,
e então a testemunha era minha mão fechando na sua,
minha boca penteando suas pálpebras e seus lábios
muitas vezes até você suspirar e se voltar para o amor.
Seu peito e coxas estavam ardendo como o junco.
Eu cobri sua fogueira em silêncio ali.
Deixamos o dia envelhecer junto com a grama.
Era em silêncio que o amor estava.

Passos e testumunhas! Nesta varanda de Glasgow quem serve
alegria como a água da montanha? Ela enche, transborda outra vez
para baixo da terra árida e rodas implacáveis.
Quantas vezes eu pensarei em você, até
que nossos passos moribundos esqueçam esta luz, esqueçam
que um dia conhecemos o vale feliz,
ou que um dia eu disse, Nós devemos pular em direção ao sol,
e nós pulamos em direção ao sol.

EDWIN MORGAN

Tradução: Virna Teixeira

Ovelha Negra - uma antologia de poesia da Escócia do século XX. Lumme Editor, 2007.

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23. 02. 2008
às 13:40horas.

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Prometeu. Rubens, 1612

ATO II

PROMETEU, HERMES, CORO DE OCEÂNIDAS

PROMETEU

(acorrentado se dirige aos elementos)

Éter sulfúrico, bebidas embriagantes,
caudais brilhantes de tequila Sauza;
vede-me preso a provas torturantes
e sem sequer saber qual é a causa!

Oh twenty dollars coin que rodas mansamente
pelo tapete azul da imensidão;
rebento de Hiperion, deus ignescente,
os ardores apaga em meu canhão!

Tu, que tua luz ofertas aos mortais
qual cérulea lanterna,
olha-me padecer males demais…
Como a Hidra de Lerna
levo no sangue gérmenes fatais.

Rua de asfalto, terra nutriente,
no cruzamento sonolento tira,
impedindo que a ira
de Zeus Cronida sobre mim rebente.

(escutando um bater de asas que se aproxima)

Alguém vem. Quem? Do espaço sideral
vem me pegar no pé um imortal?

RENATO LEDUC

Tradução: Ronald Polito

ACTO II

PROMETEO, HERMES, COROS DE OCEÁNIDAS

PROMETEO

(encadenado se dirige a los elementos)

¡Éter sulfúrico, bebidas embriagantes,
claros raudales de tequila Sauza;
vedme sujeto a pruebas torturantes
y sin saber siquiera por qué causa!

¡Oh twenty dollars coin que ruedas mansamente
por el tapete azul del infinito;
vástago de Hiperión, dios igniscente,
apaga los ardores de mi pito!

Tú, que brindas tu luz a los mortales
cual cérulea linterna,
mírame padecer horrendos males…
Como la Hidra de Lerna
llevo en mi sangre gérmenes fatais.

Tierra nutricia, asfalto de la calle,
soñoliento gendarme de la esquinaa,
impide que la inquina
de Zeus Cronida sobre mí restalle.

(escuchando un batir de alas que se aproxima)

Alguien viene. Quién es? Baja del cielo
un inmortal para tomarme el pelo?

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19. 02. 2008
às 13:00horas.

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Eu preciso de minhas memórias. Elas são meus documentos. Eu as vigio. São minha privacidade e tenho um ciúme intenso delas. Cézanne disse: “Tenho ciúme de minhas pequenas sensações”. Lembrar-se e devanear é negativo. É preciso diferenciar entre as lembranças. Você vai na direção delas ou elas vêm em sua direção? Se vai a elas, está perdendo tempo. A saudade não é produtiva. Se elas vêm a você, são as sementes da escultura.

Louise Bourgeois

Escrito por Virna Teixeira, na categoria citações | Comentaram (3)

18. 02. 2008
às 20:04horas.

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Louise Bourgeois. Red room (child)

célula

nenhuma morfina vai sedar esta dor
quando passava pelo corredor estreito até o quarto
opacidade no vidro da porta, a câmara hemática
e mãos contorcidas no mármore

reduto de lembranças rubras, acrílicas
uma escada de incêndio ineficaz para a fuga

agulhas e linhas para bordar reparos

Virna Teixeira

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15. 02. 2008
às 17:29horas.

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Gael Turnbull (Edimburgo 1928-2004): poeta, anestesista, performer e morris-dancer. Foto: Jill Turnbull

I´m sorry

I´m sorry that it has happened like this,
That I should now be sorry for what has happened.

The mistake was mine from the beginning,
Not to have declared it was all a mistake.

Once I could look you in the eyes,
Because I merely looked at your eyes and not at you.

It´s too late now, much too late,
To postpone anything any longer.

I scowl in shame,
That I should have smiled so pleasantly so often.

How can I begin to love you
Until I have opened the full measure of my hatred?

Sinto muito

Sinto muito que aconteceu desta forma,
Que eu devia sentir agora pelo que aconteceu.

O erro foi meu desde o início,
Não ter declarado que era tudo um erro.

Uma vez pude olhar você nos olhos,
Pois eu só olhava para os seus olhos e não para você.

É tarde demais agora, demasiado tarde,
Para adiar qualquer coisa por mais tempo.

Morro de vergonha,
que eu devia ter sorrido tão agradavelmente tanto

Como posso começar a amar você
Até ter exposto toda a medida do meu ódio?

GAEL TURNBULL

Tradução: Virna Teixeira

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12. 02. 2008
às 16:40horas.

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77

[sou pequena
para alcançar o céu com as mãos]

78

para mim, nem o mel nem as abelhas

79

não revolvas coisas miúdas

SAFO

Tradução: Joaquim Brasil Fontes

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12. 02. 2008
às 16:35horas.

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ANTOLOGIA BRASILEIRA EM PORTUGAL

Lançamento hoje da Antologia da Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milênio pela Editora 7 Dias, 6 Noites, em Póvoa de Varzim, no evento literário internacional Correntes d’Escritas.
Organização: Claudio Daniel.
A antologia inclui 18 poetas contemporâneos, alguns deles inéditos em livro: Adriana Zapparoli, Ana Maria Ramiro, André Dick, Andréa Catrópa, Daniel Sampaio, Danilo Bueno, Delmo Montenegro, Diego Vinhas, Donny Correia, Douglas Diegues, Eduardo Jorge, Leonardo Gandolfi, Marília Kubota, Micheliny Verunschk, Nicollas Ranieri, Simone Homem de Mello, Thiago Ponce de Moraes e Virna Teixeira.

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11. 02. 2008
às 21:49horas.

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The Blind Girl. John Everett Millais, 1856

The Dying need but little, Dear,

A Glass of Water’s all,

A Flower’s unobtrusive Face

To punctuate the Wall,



A Fan, perhaps, a Friend’s Regret,

And Certainty that one

No color in the Rainbow

Perceives, when you are gone.

Os que estão morrendo, amor,

Precisam de tão pouco:

um Copo d’água, o Rosto

Discreto de uma Flor.


Uma lágrima, talvez um Leque,

E a certeza que nenhuma cor

do Arco-íris perceba

Quando você for.

EMILY DICKINSON

Tradução: Ana Cristina César

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10. 02. 2008
às 11:11horas.

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Foto: Etiénne Carjat, 1878.

LE PORT

Un port est un séjour charmant pour une âme fatiguée des luttes de la vie. L’ampleur du ciel, l’architecture mobile des nuages, les colorations changeantes de la mer, le scintillement des phares, sont un prisme merveilleusement propre à amuser les yeux sans jamais les lasser. Les formes élancées des navires, au gréement compliqué, auxquels la houle imprime des oscillations harmonieuses, servent à entretenir dans l’âme le goût du rhytme et de la beauté. Et puis, surtout, il y a une sorte de plaisir mystérieux et aristocratique pour celui qui n’a plus ni curisoisté ni ambition, à contempler, couché dans le belvédère ou accoudé sur le môle, tous ces mouvements de ceux qui partent et de ceux qui reviennent, de ceux qui ont encore la force de vouloir, le désir de voyager ou de s’enrichir.

O PORTO

Um porto é uma morada encantadora para uma alma cansada das lutas da vida. A amplitude do céu, a arquitetura móvel das nuvens, as colorações mutantes do mar, o cintilar dos faróis, são um prisma maravilhosamente próprio para divertir os olhos sem jamais enfastiá-los. As formas esbeltas dos navios, de enxarcia complicada, nos quais o marulho imprime oscilações harmoniosas, servem para conservar na alma o gosto do ritmo e da beleza. E há também, sobretudo, uma espécie de prazer misterioso e aristocrático para aquele que já não possui curiosidade nem ambição, em contemplar, deitado no belvedere ou apoiado no quebra-mar, os movimentos todos daqueles que partem e daqueles que retornam, daqueles que ainda possuem a força de querer, o desejo de viajar ou enriquecer.

CHARLES BAUDELAIRE

Tradução: Dorothée de Bruchard

Em: Baudelaire. Pequenos poemas em prosa. Editora da UFSC, 1996.

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