28. 09. 2006às 13:25horas.

Hopper. Cape Cod Morning
REGRESSO
O som do pátio vizinho – ao longe, a máquina de cortar grama.
Aqui, funcionam as horas, os retratos
De novo seguindo seu caminho. E os passos, sobre a calçada,
o frio pela manhã, de novo, orvalho.
Vai esquentar. Talvez. Me procure quando tudo ficar bem,
Eu sei que ficaremos também.
Está chegando de novo em casa – à velha casa –
Como se não tivesse partido.
Está chegando como quem pergunta
Onde mesmo eu estava que não aqui?
Não estava mais do que aqui.
Você que não partirá.
A pergunta, na volta, será a mesma
E talvez eu a encontre de novo ali.
André Dick
26. 09. 2006às 00:21horas.
O TIGRE BRANCO
Uma clareira
sempre
se abre a
minha passagem.
Um grande ectoplasma.
Os meus estojos carrego comigo,
para quando me pinto
de vermelho
e tudo em torno
desfalece.
sou feliz.
Nada (esqueçamos
o invejoso tempo me devora.
Repetir-me é
meu único elo
com a necessidade
da eloqüência
mas rápido retorno a
minha solidão extática e inexpugnável.
O verdadeiro rei sou eu.
Ronald Polito
Terminal. 7 Letras, 2006.
25. 09. 2006às 23:52horas.

Lançamento em São Paulo
dia 06.10 (sexta-feira)
às 20h
na Mercearia São Pedro
Rua Rodésia, 34, Vila Madalena
18. 09. 2006às 00:02horas.

Marianne sempre usava uma trança enrolada no alto da cabeça, creio que um penteado de 1900, mais ou menos; jamais usou outro. Sua pele era clara, translúcida, embora já um pouco descorada quando a conheci. Seu rosto pálido corava tão depressa que ela me lembrava a Rima do romance de W.H.Hudson, Green mansions. Seus olhos brilhavam, mas não no sentido comum da expressão - ou seja, de que eram vivos. Eram vivos também, mas realmente brilhavam, como os olhos de um animal pequeno, e muitas vezes olhavam de relance para o interlocutor - rapidamente, ao final de uma frase que saíra particularmente boa, só para ver se ela tinha surtido efeito.
Elisabeth Bishop
(Em: Esforços do afeto, Cia da Letras, 2006. Tradução de Paulo Henriques Britto).
17. 09. 2006às 23:55horas.
DÚVIDAS APÓCRIFAS DE MARIANNE MOORE
Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?
A coisa de que se falar
até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?
Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar
é forma de falar da coisa?
João Cabral de Melo Neto
11. 09. 2006às 21:32horas.

J.M.W.Turner, Landscape with distant river and bay.
O Guardião
O pôr-do-sol. O incêndio da relva.
O dia perdido, a luz perdida.
Por quê amo o que evanesce?
Você que se foi, que estava partindo,
em que quartos escuros você habita?
Guardião da minha morte
preserve minha ausência. Eu estou vivo.
The Guardian
The sun setting. The lawns on fire.
The lost day, the lost light.
Why do I love what fades?
You who left, who were leaving,
what dark rooms do you inhabit?
Guardian of my death
preserve my absence. I am alive.
MARK STRAND
Tradução: Virna Teixeira
08. 09. 2006às 22:25horas.

Quem me dita as palavras quando te falo?
Quem me incrusta de gestos e caretas?
Quem fala e faz por mim? É a Impostora.
Me habitava sem quem eu soubesse
até que vieste. Então surgiu
de não sei que sotãos, como uma sombra,
e me possui como um amante tirânico
e me move como a marionete de uma feira.
E com freqüência, no espelho, vejo Ela
resgatada de não sei que cinza.
Não lhes dê nenhuma atenção quando Ela te fala,
ainda que me usurpe voz e rosto.
E se te tranca a porta de saída
com o seu corpo amoroso e brutal
é preciso que a mates sem nenhuma pena.
Faz isso por mim também e em meu nome:
Eu a tenho demais no íntimo e não saberia
parar no limiar do suicídio.
Qui em dicta les paraules quand et parlo?
Qui m’incrusta de gestos i ganyotes?
Qui parla i fa per mi? És la Impostora.
M’habitava sense que jo ho sabés
fins que vingueres. Llavors va sorgir
de no sé quines golfes, com una ombra,
i em posseix com un amant tirànic
i em mou com el titella d’una fira.
I sovint, al mirall, la veig a Ella
rescatada de no sé quina cendra.
No li facis cap cas quand Ella et parla,
encara que m’usurpi veu i rostre.
I si et barra la porta de sortida
amb el seu cos amorós i brutal
cal que la matis sense cap recança.
Fes-ho per mi també i en meu nom:
Jo la tinc massa endins i no sabría
aturar-me al llindar del suïcidi.
MARIA-MERCÈ MARÇAL
Tradução: Ronald Polito
Em: A irmã, a estrangeira. Espectro editorial, 2006.
08. 09. 2006às 21:56horas.
Lançamento

PÁSSARO DE VIDRO
[poesia]
Carlos Machado
Segunda-feira, 11 de setembro
a partir das 19 horas
Local: Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
06. 09. 2006às 11:55horas.
KANTOLUANDA
Leitura com os poetas angolanos Abreu Paxe e Conceição Cristovão hoje à noite, na Casa das Rosas, a partir das 19:30h.
06. 09. 2006às 11:49horas.

© Afonso Massongi (Afó)
cicatrizes os espelhos
falar ao rés palavra incandescente
arremedos o gráfico de linhas varanda
decerto, as paredes abraçam os encantos cinzas
a poesia cresce azul além das pontes línguas
o histograma amordaça cego fóssil
fio de pó os alicerces elevados pássaros
as águas dos pés sob desertos
fundam duras cicatrizes a freqüência de espelhos
Abreu Paxe
(A Chave no Repouso da Porta, INIC, Angola, 2003)