28. 07. 2005às 08:12horas.

AVES DE RAPINA
Há muitos anos que os caminhos se arrastavam
Subindo para as montanhas.
Percorriam as florestas perseguindo a distância,
Lentos e longos deslizavam nas planícies.
Passaram chuvas, passaram ventos,
Passaram sombras aladas…
Um dia os aviões surgiram e libertaram a distância,
Os aviões desceram e levaram os caminhos.
Joaquim Cardozo
Maria da Paz Ribeiro Dantas estuda a poesia de Joaquim Cardozo há vários anos. Seu livro Joaquim Cardozo Contemporâneo do Futuro é essencial para entender a obra de Joaquim Cardozo, ainda pouco conhecida e difundida no Brasil, e inclui também uma coletânea de poemas. Mais informações do poeta no site http://www.joaquimcardozo.com. E-mail da autora para contato: peace40@uol.com.br.
23. 07. 2005às 10:19horas.

LISBOA
os pés
caminham,
molhados
entre óculos
analíticos e
gabardinas
pela ladeira
a chuva
escoa
saudade
mágoas
Virna Teixeira
(Distância, editora 7 letras, 2005)
20. 07. 2005às 09:30horas.
Chico Albuquerque © (It’s all true)
finge uma imagem e decifra
libras como
se dissesse aos cães
aquário entenderia azul e lírios
alguma constelação marinha
ou astros
presságio nos grãos de areia
os olhos de Sofia ardem
e grita.
o seu sofrer
não dura mais que outro chamado
de afundar como caranguejos
puro engenho, solidão
lembro: alguém fizera lagostas
na água e sal
e amornam sobre a mesa.
meu sono preenche
os aromas salobros, vermelhos
pedregulhos e finíssimas agulhas
soma de morte e sabor
Carlos Augusto Lima
19. 07. 2005às 10:33horas.
Círculo
Seres de olhos verdes
contemplam as águas
que não escorrem
O olhar
flutua sobre as águas
encontra as nuvens
onipresente
Há muito
os peixes enverdeceram
morreram
Eram nénufares
que alçaram vôo
para as alturas
Hoje seus olhares
retornam às águas
MIODRAG PÁVLOVITCH
Tradução: Aleksandar Jovanovic
17. 07. 2005às 10:31horas.

“Vou continuar, é exatamente da minha natureza
nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre,
entro em todos os palcos”
Clarice Lispector
15. 07. 2005às 09:00horas.
Victoria station
cotovelos sobre o braço da cadeira,
consulta o mínimo relógio de pulso:
nove e vinte. tem os cílios tremendo
num cacoete seguido e os letreiros piscando
regulam a chegada dos trens. o postal com um
urso branco dizia quarta-feira vs.
o ponto de encontro é cada vez mais distante,
você pode estar num quarto de hotel ou numa
estação, “chego sempre fora da hora”. ele me disse
que sabia, foram anos fugindo da chuva
“ficava na última cadeira contando os segundos
antes da partida.” essa é a única
maneira de estar entre.
podia levantar num movimento perpétuo,
cabeça erguida e um bilhete: eis a senha.
(assim fugia a silhueta da mulher de costas)
a essa altura podia ser um silêncio maquinal,
mas o ruído na hora de dizer e os largos dedos
apontando tornavam
qualquer fuga impossível
Marília Garcia
13. 07. 2005às 07:51horas.
I AM WITH YOU
In front of you I go
you in front of me
the early sun’s gold chain
jingles on my wrist.
Where are you going - I ask
you answer - how do I know.
I speed up my walk
but you speed all the more.
I in front of you
you in front of me.
But we stop in front of a gate.
I kiss you
you give me a kiss
then without a word you vanish
and spirit my life away.
Lajos Kássak
Tradução: Edwin Morgan
09. 07. 2005às 08:05horas.
À flor da pele
Hong Kong, 1962
em câmera lenta
descia as escadas
sinuosa seda
do vestido
em fundo carmim
seu porte de garça
o olhar dele
recostado, no muro
de terno
solitária tensão
de corpos, silhueta
música de imagens
a mão sobre o ombro
no banco do táxi
Virna Teixeira
07. 07. 2005às 08:37horas.

Cindy Sherman, Untitled (1982)
ESPERANDO AS BÁRBARAS
Barbie, Tippie ou como você chame,
Janet, Condolezza, Lynndie,
não é mais que uma boneca.
Não como Konstantin,
que amava os homens e por eles caiu
nos bordéis de Alexandria
anunciando homens
como os de vocês.
Vocês são demais.
Anseiam romances
enquanto seus homens explodem cabeças
de porco no mundo velho.
Vocês sabem tudo sobre sexo
e lêem revistas pornográficas em banheiros iluminados,
controlando hormônios.
Vocês são hiper.
Jovens americanas, como vocês, mas do Sul,
também ousadas, desde dez anos vendem o corpo
para comer. Os abutres comem delas.
Vocês ensinam as mulheres a serem liberadas
Usando as mais modernas técnicas
para conseguir prazer.
Todas as mulheres do mundo aguardam o ritmo
que a superestrela virgem ditará,
apertada em corpetes e botas militares.
Vocês são o rosto das mulheres do mundo.
Que será de nós sem as barbies?
Marília Kubota
(publicada na revista Inimigo Rumor 17)
06. 07. 2005às 09:49horas.

Francis Bacon. Portrait of Isabel Rawsthorn
Standing in a Street in Soho, 1967
FERA
para Horácio Costa
Fera bifronte.
Insulta-nos, a insaciada,
antes de castrar nossos olhos.
Exala sopro de serpe;
salmodia gritos de gralhas.
Ela, a escamosa.
Ela, a obsediada.
Avança a língua negra de onagro,
que mutila ao lamber
nossos lábios.
Devassa da noite e seu dramatismo,
da noite e seus jogos
marsupiais,
faz do breu uma erótica de lâminas.
Cega cadela, mastiga meniscos
de donzelas, parietais
de infanções,
o torso de um bispo,
o nariz de um rapsodo
laureado:
peões de um jazigo-
tabuleiro,
agora pasto de compêndios
metafísicos.
Florentina, exibe seus múltiplos ornatos,
ao devorar a carne
dessangrada:
pingente de ouro numa teta,
argola de prata
no lábio cinzento
de harpia.
Ela, que não é prima-donna.
Ela, que não é movie star.
Sinto sua presença, ela me espreita na sombra de um muro,
com sua capa cerimonial,
sua guadanha,
ávida por envolver-me
em úmida lascívia;
mas eu me esquivo
da canina,
belicosa,
bicéfala dama-dragão.
Seguirei disfarçado
de beduíno, tuaregue,
nômade africano.
Se ela vier buscar-me
neste poema,
não encontrará
a carne tensa, palatável,
apenas a efígie
de um perpétuo
fugitivo.
Claudio Daniel