"até segunda ordem não me risque nada."



28. 01. 2005
às 09:04horas.

JOGO

Abro a caixa do inverno. Tiro os ventos,
as rajadas de chuva, os bancos de neve de onde
fugiram todos os pássaros. Desenrolo à minha
frente os pântanos do inverno. Ando à volta
deles para desentorpecer as pernas; sacudo
o frio das mãos; limpo a chuva que se me colou
aos cabelos. Depois, volto a lançar os dados-
e avanço até a primavera.

Nuno Júdice

(poema publicado na revista Zunái)

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26. 01. 2005
às 15:06horas.

I,22

Wir sind die Treibenden.
Aber den Schritt der Zeit,
nehmt ihn als Kleinigkeit
im immer Bleibenden.

Alles das Eilende
wird schon vorüber sein;
denn das Verweilende
erst weiht uns ein.

Knaben, o werft den Mut
nicht in die Schnelligkeit,
nicht in den Flugversuch.

Alles ist ausgeruht:
Dunkel und Helligkeit,
Blume und Buch.

I,22

A nós, cabe andar.
Mas o tempo, os seus passos,
são mínimos pedaços
do que há de ficar.

É perda pura
tudo o que é pressa:
só nos interessa
o que sempre dura.

Jovem, não há virtude
na velocidade
e no vôo, aonde for.

Tudo é quietude:
escuro e claridade,
livro e flor.

Rainer Maria Rilke

Tradução: Augusto de Campos (Coisas e Anjos de Rilke, Ed. Perspectiva, 2001)

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18. 01. 2005
às 14:08horas.

WORDS

Axes
After whose stroke the wood rings,
And the echoes!
Echoes travelling
Off from the center like horses.

The sap
Wells like tears, like the
Water stiving
To re-establish its mirror
Over the rock

That drops and turns,
A white skull,
Eaten by weedy greens.
Years later I
Encounter them on the road -

Words dry and riderless,
The indefatigable hoof-taps.
While
From the bottom of the pool, fixed stars
Govern a life.

PALAVRAS

Machados
Que batem e retinem na madeira,
e os ecos!
Ecos escapam
Do centro como cavalos.

A seiva
Mina em lágrimas, como a
Água tentando
Repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e racha,
Crânio branco
Comido por ervas daninhas.
Anos depois eu
As encontro no caminho -

Palavras secas, sem destino,
Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.

Sylvia Plath

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes (Poemas, Ed. Iluminuras, 1991)

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16. 01. 2005
às 08:40horas.

Parada Cardíaca

Essa minha secura
Essa falta de sentimento
Não tem ninguém que segure
Vem de dentro

Vem da zona escura
Donde vem o que sinto
Sinto muito
Sentir é muito lento

Paulo Leminski

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13. 01. 2005
às 18:06horas.

AT THIS MOMENT OF TIME

Some who are uncertain compel me. They fear
The Ace of Spades. They fear
Loves offered suddenly, turning from the mantelpiece,
Sweet with decision. And they distrust
The fireworks by the lakeside, first the spuft,
Then the colored lights, rising.
Tentative, hesitant, doubtful, they consume
Greedily Caesar at the prow returning,
Locked in the stone of his act and office.
While the brass band brightly bursts over the water
They stand in the crowd lining the shore
Aware of the water beneath Him. They know it. Their eyes
Are haunted by water

Disturb me, compel me. It is not true
That “no man is happy,” but that is not
The sense which guides you. If we are
Unfinished (we are, unless hope is a bad dream),
You are exact. You tug my sleeve
Before I speak, with a shadow’s friendship,
And I remember that we who move
Are moved by clouds that darken midnight.


NESTE EXATO MOMENTO

Alguns que são indecisos compelem-me. Eles temem
O Ás de espadas. Eles temem
Amores oferecidos de repente, virando-se da lareira,
Dóceis com decisão. E desconfiam
Dos fogos de artifício ao lado do lago, primeiro o estrondo,
Depois as luzes coloridas, subindo.
Tentativos, hesitantes, duvidosos, eles consomem
Avidamente César retornando na proa,
Trancados na pedra do seu ato e ofício.
Enquanto a banda de metais explode brilhantemente sobre a água
Eles permanecem na multidão revestindo a margem
Percebendo a água por trás Dele. Eles sabem. Seus olhos
Estão assombrados pela água.

Perturbam-me, compelem-me. Não é verdade
Que “nenhum homem é feliz” mas não é
Este sentido que nos guia. Se nós estivéssemos
Inacabados (estamos, a menos que a esperança seja um pesadelo),
Você é exato. Você puxa pela minha manga
Antes que eu fale, com uma amizade de sombras,
E eu lembro que nós que nos movemos
Somos movidos pelas nuvens naquela meia-noite escura.

Delmore Schwartz

(Tradução: Virna Teixeira)

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08. 01. 2005
às 08:51horas.

Noturno

O que enxergava, no silêncio
escuro de estrelas

verniz prateado
sobre as águas, o deserto
longo da praia
descalça

uma margem de pequenas
pedras

cascalho, conchas

e o movimento inquieto dos
peixes
entre as ondas
nadando em direções

contrárias.

Virna Teixeira

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06. 01. 2005
às 09:11horas.

SOBRE VIVER

I

Viver não é engraçado:
você deve viver com grande seriedade
como um esquilo, por exemplo,
quer dizer, sem procurar por algo que esteja acima ou além de viver,
viver deve ser a sua única ocupação.
Viver não é engraçado:
você deve levar a vida à sério,
tanto e de tal forma
que, por exemplo, mesmo com suas mãos amarradas atrás das costas,
de costas para a parede,
ou ainda num laboratório
vestido com seu avental e óculos de proteção,
você possa morrer pelas pessoas,
mesmo por pessoas cujos rostos você nunca viu,
muito embora você saiba que viver
é a coisa mais real que existe, a mais bonita.
Você deve levar a vida tão à sério
que mesmo aos setenta anos, por exemplo, você irá plantar oliveiras
e não pelos seus filhos,
mas porquê embora você tema a morte você não acredita nela, pois viver é muito mais denso.

II

Vamos dizer que você esteja seriamente doente, precise de uma operação,
o que implica talvez não sair
da mesa de cirurgia.
Mesmo assim é impossível não sentir-se triste
sobre partir um pouco cedo demais
e rir ainda das piadas que nos contam,
olhar pela janela para ver se está chovendo,
ou esperar ansiosos
pelo próximo noticiário…
Digamos que nós estamos no fronte
por algo que vale a pena lutar.
Ali, no primeiro ataque, naquele exato dia,
podemos cair no chão, mortos.
Sabemos disto com uma raiva curiosa,
mas ainda nos preocupamos até a morte
sobre o fim da guerra, que pode durar anos.
Digamos que nós estamos na prisão
perto dos cinqüenta anos,
e que temos mais dezoito anos a cumprir,
antes que as portas de ferro se abram.
Ainda assim viveremos do lado de fora,
com as suas pessoas e animais, lutas e o vento -
com o lado de fora além dos muros.
Não importa como e e onde nós estamos,
devemos viver como se nunca fôssemos morrer.

III

Esta terra vai envelhecer,
uma estrela entre estrelas
e uma das menores,
Uma partícula dourada sobre o azul de veludo -
a nossa grande terra.
Esta terra vai envelhecer um dia,
não como um bloco de gelo
ou mesmo como uma nuvem morta
mas como uma amêndoa vazia que vai rolar junto
à mais completa escuridão…
Você deve lamentar por isto agora mesmo-
você tem que sentir esta mágoa agora-
pois o mundo deve ser amado com essa intensidade
se você vai dizer: ?eu vivi?…

Nazim Hikmet
Fevereiro, 1948

Tradução: Virna Teixeira

(Poema publicado na edição de novembro de 2004 do Suplemento Literário de Minas Gerais)

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