"até segunda ordem não me risque nada."



28. 12. 2004
às 09:35horas.

QUESTÃO DE PONTUAÇÃO

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

Joao Cabral de Melo Neto

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22. 12. 2004
às 21:36horas.

NOITE

Sozinha estou entre paredes brancas
Pela janela azul entrou a noite
Com seu rosto altíssimo de estrelas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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17. 12. 2004
às 19:15horas.

Lowlands

Nas fronteiras, a estação
é sombria:
as árvores, sem folhas
galhos espetados
que apontam
para o céu.

Caminhamos pelas ruínas
da abadia gótica.
Através de janelas, altas
avistam-se
lápides
no jardim de gelo.

Onde em uma pequena
caixa, de bronze
celta -
o coração de Robert
the Bruce repousa
sobre a neve.

Virna Teixeira

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14. 12. 2004
às 14:26horas.

Ruído

Conchas dispersas
pelo mar de muros
ecoam outro outono

O raso das antenas
capta em parábola
a mensagem elíptica

Empoçada no côncavo
a mesma luz rasteira varre-ruas
infiltra-frestas agora transmite

Fora do ar
a tela alterna faixas
crespas ondas tecem
o marulho teledifuso

Coados fatos, feitos e ditos
a concha colada ao ouvido
escoa um silêncio rarefeito

Incide ou-
tonal emite
um sol sem zênite

Simone Homem de Mello

(poema publicado na revista Zunái, do livro Périplos, a ser publicado em 2005)

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06. 12. 2004
às 20:38horas.

“Prosa: palavras na sua melhor ordem; poesia: as melhores palavras na melhor ordem.”

Samuel Coleridge

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01. 12. 2004
às 10:38horas.

CÂMBIO

o mar
não tem margem

você está
sem passagem
em alguma parte dele
tentando ir para
outra parte

e se chegar lá
talvez siga viagem
ao ver o mar
à deriva passar

Ronald Polito

De passagem, Nankim Editorial, 2001

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