14. 08. 2004
às 08:51horas.
caronte
e atravessaram
rios
sombrios e
ilhas (de
ópio)
na frágil
embarcação,
o corpo
ficar ali
no caos,
esquecida
até o lento
pathos
de volta.
Virna Teixeira
"até segunda ordem não me risque nada."
caronte
e atravessaram
rios
sombrios e
ilhas (de
ópio)
na frágil
embarcação,
o corpo
ficar ali
no caos,
esquecida
até o lento
pathos
de volta.
Virna Teixeira
AMOR-EMARANHADO, labirinto
apartado de mim pelo fôlego das rosas,
pensas, no jardim.
Dos pés da grama me ergue um calafrio,
e tudo é muro, palavra que não acende
neste anelo em que me enredo.
para que tijolos, toda esta geometria,
que faz da paisagem um deserto de cintilações espontâneas?
De linhas retas apenas
o fio que desenrolo,
exausta embora atenta,
sem conhecer a mão
que o estende na outra ponta.
Claúdia Roquette-Pinto
Corola, Ateliê Editorial
Le paysage tout entier se trouvair pris
Entre la mer au loin et la mer prochaine.
Tu parlais de la solitude comme d’une personne.
Et ce que tu disais formait un bloc,
Debout, près de la porte.
A paisagem inteira se encontrava presa
Entre aquele mar longe e este mar perto.
Falavas da solidão como de uma pessoa.
E aquilo que dizias formava um bloco,
De pé, junto da porta.
Henri Deluy
Tradução: Mário Laranjeira
distância
um telefonema de
três minutos
depois,
o silêncio
do outro lado
da linha.
Virna Teixeira
ESTAR FOR HÉLIO OITICICA
They wore strips of fire along their limbs for that death dance, fabric striped like roof tiles, a cabin in Eden, small stars in the shape of proverbs
Checks and balances her thoughts myself, organdy or tulle crumpled and bunched around a rolled core of burlap upon a reflective cylindrical horizontal base
The shorn wrapped woman opens the glass bólide. Rose pigment. Floral pattern on the one hand, cape on the other. Overlay
He wanted to emphasize the other box too. In order to do this, he needed Milton. His friend had died in the sea
He needed to celebrate the bandit, Lycidas. The top of the box held between two hands, diagonal slash a lighter gray across the lid
The open box above, small abstractions piled inside. Another lighter smaller object to the right and on the following page
Space relief underneath, the slanted opaque illusionary planes on metal stands. On glass. Two round objects seen from the side, urn-like, from above, sphincter-like, pebbled
At least four kinds of cloth from white to dark, a striped one with a sheen to it.Held, smiling above the gravel and the shadowed grass of Eden
ESTAR POR HÉLIO OITICICA
Eles usavam faixas de fogo ao longo dos corpos para aquela dança da morte, tecido listrado como ladrilhos no telhado, uma cabine no Éden, pequenas estrelas no formato dos provérbios
Limitações e inspeções seus pensamentos eu mesma, organdi ou tule amarrotado e agrupado em torno de um núcleo enrolado de aniagem sob uma base refletora horizontal e cilíndrica
A mulher tosquiada e coberta abre a bólide de vidro. Pigmento rosa. Padrão floral em uma mão, cabo na outra. Revestimento
Ele queria enfatizar a outra caixa também. Para fazer isto, precisava de Milton. Seu amigo tinha morrido no mar
Precisava celebrar o bandido, Lycidas. O topo da caixa envolto entre as duas mãos, corte diagonal em cinza mais claro cruzando a tampa
A caixa aberta acima, pequenas abstrações empilhadas dentro. Um outro objeto menor e mais leve à direita e na página seguinte
Espaço aliviado em baixo, os planos inclinados ilusórios e opacos em suportes de metal. Em vidro. Dois objetos redondos vistos de lado, como urnas, de cima, como esfíncteres, ladrilhados
Pelo menos quatro tipos de tecido do branco ao negro, um listrado com um brilho. Contido, sorrindo acima do cascalho e da relva sombreada do Éden
Norma Cole
POESIA
I giorni e le notti
suonano
in questi miei nervi
di arpa
vivo di questa gioia
malata di universo
e soffro
di non saperla
accendere
nelle mie
parole.
POESIA
Dias e noites
tangendo
em meus nervos
de harpa
vivo desta joia
doentia do universo
e sofro
de não sabê-la
acender
na minha
palavra.
Giuseppe Ungaretti
Tradução: Elson Froes
montanha russa
meu amor cresce a cada
noite mas se recolhe nos escombros
dos dias meu
amor se esparrama pelas luzes
cambiantes das estrelas mas se
entope dos melancólicos buracos
negros
tanto me perco nos cumes
dos prazeres inauditos quanto
nas diárias dores de cada pulo
no vazio
Adair Carvalhais Júnior
do livro Desencontrados Ventos (Ed. Outras Letras, Rio de Janeiro, 2002) do Adair, que recebi esta semana.
Do amor
LXXVI
Se te pertenço, separo-me de mim.
Perco meu passo nos caminhos de terra
E de Dionísio sigo a carne, a ebriedade.
Se te pertenço perco a luz e o nome
E a nitidez do olhar de todos os começos:
O que me parecia um desenho no eterno
Se te pertenço é um acorde ilusório no silêncio.
E por isso, por perder o mundo
Separo-me de mim. Pelo Absurdo.
Hilda Hilst
IN DER FLÜSSEN NÖRDLICH DER ZUKUNFT
werf ich das Netz aus, das du
zögernd beschwerst
mit von Steinen geschriebenen
Schatten.
Paul Celan
NOS RIOS AO NORTE DO FUTURO
lanço a rede que tu
hesitante carregas
com sombras escritas por
pedras.
Tradução: Claúdia Cavalcanti
“Vivo continuamente na minha infância, deambulo por apartamentos em penumbra, passeio pelas silenciosas ruas de Uppsala, vejo-me diante da casa de veraneio e escuto o murmúrio da folhagem da bétula gigantesca que ali havia. Desloco-me a uma velocidade incrível, pois no fundo vivo permanentemente em meu sonho e faço visitas à realidade”
Ingmar Bergman, Imagens, Ed Martins Fontes, 2001.