"até segunda ordem não me risque nada."



23. 05. 2010
às 14:06horas.

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O Jardim do Interrogador. Paula Rego, 2000 (pastel sobre papel).

A Fundação de Vítimas para a Tortura pediu-me para fazer qualquer coisa que eles pudessem vender, e contaram-me a história de uma rapariga que tinha sido presa. É uma história horrível; ela só se salvou porque o tio dela subornou os guardas para que estes a levassem num caixote de lixo e a despejarem no meio de uma lixeira…E eu pensei “é isso que vou fazer, vou fazer o jardim desse interrogador, onde ele trata de suas flores”. E então pensei, “olha que giro, Lila, vais-te vestir de inquisidor”. Ela então encheu-se de enchumaços e eu fui comprar as luvas de jardinagem e as outras coisas, e ali está ela.

“Então isto é uma espécie de tragicomédia”, observa o entrevistador. “Sim, ou uma espécie de gozo, se preferir”, responde a artista.

Atacar o privilégio e autoridade por meio do “gozo” é, evidentemente, a a arma da sátira; e o uso da inversão de estatuto ou de género como forma de compensação simbólica é o ofício comum nos rituais de inversão tais como eles tradicionalmente ocorrem durante o carnaval ou nas festividades estivais (…) Um ofício como este tem que ser visto, na contexto da obra de Paula Rego, como partilhando de uma estratégia consciente de subversão: “os meus temas favoritos”, comentou ela, “são os jogos provocados pelo poder, o domínio e as hierarquias. Dá-me sempre vontade de pôr tudo de pernas para o ar, desalojar a ordem estabelecida, alterar as heroínas e os imbecis”.

(…) Tenho fortes sentimentos políticos acerca das mulheres, acho que o mundo está a tornar-se de novo mais masculino. Como pintora, penso que há sempre uma história para contar que ainda não foi contada”.

Ruth Rosengarten

Em: Contrariar, esmagar, amar. A Família e o estado Novo na obra de Paula Rego. Assírio & Alvim, 2009

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27. 04. 2010
às 21:56horas.

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XI. VIRGINIA

Desde o início soube. Na verdade desde ontem, desde antes. Mas me limitei a observá-los, enquanto me aplicava nos cálculos para que não se emaranhassem os destinos nem se equivocassem os ângulos entre os planetas, as cúspides, os luminares. Embora nem sempre me ouvissem, falava assim mesmo. Dizia de Netuno embaçado, tornando ainda mais sangrenta a fúria de Marte, do movimento maléfico de Mercúrio, unido à Lua para obscurecer a luz do Sol, do brilho mais forte de Vênus em sua Casa, trazendo à tona as funduras de Saturno. Sobre todos, pairava Urano, a estimular o presságio da estranha abundância provocada por Júpiter, enquanto mais longe, por trás da consciência, como o jorro de lava dos vulcões, Plutão faria explodir o pus de todas as feridas. Dependeria de nosso exercício de alquimia saber transmutar o gosto nojento desse visgo amarelo em outro sabor mais limpo.

Para isso estávamos ali, em teste. Sem passado nem futuro, suspensos. Mas a mim não importava o que se fora. Queria o passo à frente. Além ainda de inesperadas sinastrias, bizarras quadraturas das quais vinha tentando inutilmente avisá-los tanto tempo antes. Respeitavam a isso que chamam de minha “loucura’ mas solicitavam-me às vezes, pobremente, quando seus amores se complicavam, quando seus bens se perdiam, ainda que cinco minutos depois já não lembrassem minhas palavras. Que talvez não sejam definitivas, mas buscam sempre por essa região que entre a larva e a borboleta acontece num segundo no interior da crisálida para anunciar um próximo e possível vôo numa vida que não durará mais que um dia, de tão perfeita se armou. Porque não quero voltar outra vez a este plano de movediços terrenos enganosos. Sei bem de mim que, quando o sol encontrar novamente meu sol, talvez no próximo verão, também estarei partindo. Completa.

(…)

Caio Fernando Abreu

Décimo primeiro fragmento da décima terceira voz. No conto “Dodecaedro”, sobre os doze signos do zodíaco (XI representado pelo signo de aquário). Segundo o autor, este conto reúne o inconsciente e o caos de Peixes, que contém em si todos os outros signos. Ao longo da narrativa, Caio atribuiu um nome/ personagem a cada fragmento (signo). Virginia provavelmente representa a visionária escritora Virginia Wolf, que era aquariana. Em: O Triângulo das Águas. Ed. Nova Fronteira, 1983.

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05. 04. 2010
às 01:09horas.

Germina

Escrever palavras, fotografar paisagens: a poesia de Virna Teixeira. Um texto de Susanna Busato na revista Germina.

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31. 10. 2009
às 11:49horas.

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A casa dos loucos

Michel Foucalt no Hipotálamo.

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08. 10. 2009
às 01:00horas.

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MDMA e memória?

Êxtase no hipotálamo.

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23. 08. 2009
às 12:08horas.

O Escritor: Uma “Máquina de Produzir Desordem”

Artigo de Claudio Daniel sobre o romance visual O Escritor, de Ana Hatherly, publicado na revista Eutomia.

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11. 07. 2009
às 10:53horas.

Poetic communities have adjusted to past feminist interventions and now accommodate a recognizable - but not exclusive - set of concerns identified with feminism. In the sociology of poetry there is a system of signs understood by writer, editor, and, ultimately, a niche audience. For example, an editor may be inclined to publish writing that exhibits certain hallmarks of a feminist project: poems that explore the erotic connotations of jouissance, poems that are well versed in the language of psychoanalysis and sexual difference, poems in which the body registers as a site of linguistic soundings. There may be much to admire in these kind of poems, but their value to an editor derives at least in part of the specialized knowledge they contain, and the prestige that knowledge confers upon the publication among those who discern it.

Because of the increasing specialization of poetry as an academic discipline, it is not surprising that it does not connect with “the living and working conditions of women in the national/international arena”. Only through the complete abstraction of “poetry” it is possible to make this broad connection.

Paul Foster Jonhson

(prefácio do número 7 da revista Aufgabe/ EUA, Litmus Press).

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06. 02. 2009
às 12:24horas.

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Na clínica onde trabalho, a Fundação Linuty, já fizeram milhares de comentários desagradáveis sobre as minhas histórias… Meu primo, Gustin Sabayot, não esconde a sua opinião: acha que eu deveria mudar de gênero. Ele também é médico, mas do outro lado do Sena, na Chapelle-Jonction.
(…)
Que profissão desagradável a nossa: dar consultas. De noite, ele também está moído. Quase todo mundo faz perguntas exaustivas. Não adianta nada a gente se apressar, temos que repetir vinte vezes todos os detalhes da receita. As pessoas se divertem fazendo a gente falar até se esgotar… Mas os bons conselhos não vão servir para nada, absolutamente nada. eles têm medo que a gente não lhes dê bastante atenção; por isso insistem… Ventosas, radiografias, pressão… É preciso apalpá-los de alto a baixo… Medir tudo…
(…)
Gustin me conhece bem. Quando está sóbrio, dá ótimos conselhos. É especialista em estilo retórico. A gente pode confiar nas suas opiniões. Não é nem um pouco invejoso. Já não espera grande coisa da vida. Tem um antigo amor, infeliz. Não quer esquecê-lo. Mas fala dele muito pouco. Era uma mulher que não valia nada. Gustin é um coração de ouro. Não vai mudar até a morte.
Enquanto isso. bebe um pouco…
O meu problema é o sono. Se eu conseguisse sempre dormir bem, nunca teria escrito uma linha.

Louis Ferdinand Céline

Em: Morte a crédito. Tradução de Vera Azambuja Harvey e Maria Arminda Souza-Aguiar. Nova Fronteira, 1982.

Novelista e médico francês, nasceu perto de Paris, em 1894. Participou como voluntário na I Guerra Mundial, viajou em missões por África e Estados Unidos por conta da Sociedade de Nações e trabalhou em uma clínica estatal em Clichy. No final dos anos trinta, foi acusado de anti-semitismo e de colaboracionismo com os nazistas, e teve que exilar-se em 1944. Finalmente foi perdoado pelo governo francês, e voltou a Paris em 1950. Morreu em 1961.

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11. 10. 2008
às 18:13horas.

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Caio Fernando Abreu e Cazuza
Foto: Vânia Toledo
Em Diário de Bolsa - Instantâneos do Olhar
Na Pinacoteca do Estado. Até 26/10

Sim, deve ter havido uma primeira vez, embora eu não lembre dela, assim como não me lembro das outras vezes, também primeiras, logo depois dessa em que nos encontramos completamente despreparados para este encontro. E digo despreparados porque sei que você não me esperava, da mesma forma como eu não esperava você. Certamente houve, porque tenho a vaga lembrança - e todas as lembranças são vagas, agora -, houve um tempo em que não nos conhecíamos, e esse tempo que passávamos desconhecidos e insuspeitados um pelo outro, esse tempo sem você eu lembro. Depois, aquela primeira vez e logo após outras e mais outras, tudo nos conduzindo apenas para aquele momento.

Às vezes me espanto e me pergunto como pudemos a tal ponto mergulhar naquilo que estava acontecendo, sem a menor tentativa de resistência. Não porque aquilo fosse terrível, ou porque nos marcasse profundamente ou nos dilacerasse - e talvez tenha sido terrrível, sim, é possível, talvez tenha nos marcado profundamente ou nos dilacerado - a verdade é que ainda hesito em dar um nome àquilo que ficou, depois de tudo. Porque alguma coisa ficou, E foi essa coisa que me levou há pouco até a janela onde percebi que chovia e, difusamente, através das gotas de chuva, fiquei vendo uma roda-gigante. Absurdamente. Uma roda-gigante. Porque não se vive mais em lugares onde existam rodas-gigantes. Porque também as rodas-gigantes talvez nem existam mais. Mas foram estas duas coisas - a chuva e a roda-gigante -, foram essas duas coisas que de repente fizeram com que algum mecanismo se desarticulasse dentro de mim para que eu não conseguisse ultrapassar aquele momento.

Caio Fernando Abreu

Trecho de “O outro lado da tarde”. Em: O Ovo Apunhalado. Editora Siciliano, 1992

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30. 08. 2008
às 15:44horas.

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Alberto Giacometti

Não, não, a obra de arte não se destina às novas gerações. Ela é ofertada ao inumerável povo dos mortos. Que a aceitam. Ou a recusam. Mas esses mortos de quem falo nunca foram vivos. Ou então os esqueci. Foram vivos o bastante para que os esqueçamos, já que sua vida tinha por função fazê-los transpor essa tranqüila margem de onde aguardam um sinal - vindo daqui - e o reconhecem.
Ainda que presentes, onde estão essas figuras de Giacometti a que me refiro, se não na morte? De onde escapam ao mínimo apelo de nossos olhos para se aproximar de nós.

Jean Genet

Em: O ateliê de Giacometti, Cosac & Naify, 2000.

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