
Acho que é o ano de 1909. Sinto como se estivesse em um cinema, o longo braço de luz cruzando a escuridão e girando, meus olhos fixos na tela. Este é um filme mudo como o de um velho cinematógrafo, onde os atores estão vestidos em roupas ridiculamente antiquadas, e um clarão sucede o outro em sobressaltos. Os atores também parecem saltar e andam rápido demais. Até mesmo os disparos são cheios de pontos e raios, como se chovesse quando a foto foi tirada. A luz é ruim.
É domingo à tarde, 12 de junho de 1909, e meu pai está caminhando pelas ruas quietas do Brooklyn para visitar minha mãe. Suas roupas acabaram de ser passadas e sua gravata aperta muito o colarinho. Ele remexe as moedas nos bolsos, pensando nas coisas inteligentes que vai dizer.
(…)
Meu pai chega à casa da minha mãe. Ele chegou cedo demais e então subitamente fica envergonhado. Minha tia, a irmã de minha mãe, atende a campainha estridente com um guardanapo na mão, pois a família ainda está jantando. Enquanto meu pai entra, meu avô se levanta da mesa e aperta sua mão. Minha mãe correu para o andar de cima para se arrumar. Minha avó pergunta se meu pai já jantou, e diz que a Rosa vai descer logo. Meu avô inicia a conversa comentando sobre o clima ameno de junho. Meu pai senta desconfortavelmente perto da mesa, segurando seu chapéu na mão.
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Meu pai e minha mãe saem de casa, meu pai apertando a mão da minha mãe mais uma vez, a partir de algum desconforto desconhecido. Eu me remexo desconfortavelmente também, mal acomodado no assento duro do cinema.
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Meu pai conta para minha mãe quanto dinheiro ganhou na última semana, exagerando uma quantia que não precisava ser exagerada. Mas meu pai sempre sente que as realidades são limitadas de alguma forma.
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Eles caminham ao longo da passarela enquanto a tarde desce pelos imperceptíveis degraus na incrível poeira violeta. Tudo evanesce em um brilho relaxado, mesmo o murmúrio sem cessar da praia, e as voltas do carrossel.
Delmore Schwartz
Tradução: Virna Teixeira
Trechos do conto “Nos sonhos começam as responsabilidades”, publicado no último número da revista Coyote. Delmore Schwartz nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, em 1913, em uma família de judeus imigrantes da Romênia. O conto foi publicado pela primeira vez na revista Partisan Review, em 1937. Narra o início da relação entre seus pais, que separaram-se de forma tumultuada quando Delmore tinha 10 anos de idade. O conto foi publicado no livro homônimo, e trouxe precoce notoriedade ao autor.