"até segunda ordem não me risque nada."



14. 08. 2010
às 16:56horas.

s15-1.jpg

UT CRIMINA

Para meu próximo passo,
senhoras e senhores, eu precisaria
de algum objeto pessoal de seus bolsos.
Chave isqueiro cigarro
caneta, tanto faz. Ótimo,
senhora, uma chave. Agora
não se deixe iludir por truque algum
e veja diante de seus olhos
a transformação.
Minha mão e onde estava a chave,
uma moeda. Segure.
Você deve estar pensando
o que aconteceu com a chave?
Senhora, por favor, olhe no bolso,
ela foi devolvida a você
com a moeda.

Leonardo Gandolfi

Poema inédito do livro “A Morte de Tony Bennett”, que será publicado este semestre pela Lumme Editor.

Escrito por Virna Teixeira, na categoria poemas | Comentaram (3)

12. 08. 2010
às 23:40horas.

bed.jpg
Imogen Cunningham. The unmade bed, 1957.

Visita

Criado-mudo:
Bíblia e
rosário de contas.

Na cama, ao lado
a nudez
sem nome.

Virna Teixeira

Escrito por Virna Teixeira, na categoria poemas | Sem comentários (0)

10. 08. 2010
às 00:36horas.

Esta semana

Lançamento do livro Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia moderna, de Claudo Willer, publicado pela editora Civilização Brasileira. Dia 11 de agosto(quarta-feira), a partir de 19h, na Loja Record da Livraria Cultura  (Av. Paulista 2073).

Escrito por Virna Teixeira, na categoria poemas | Sem comentários (0)

06. 08. 2010
às 14:19horas.

faces.jpg

exercício

Pular no fosso onde você não está. Exercício de amar a
distância, na perda total.
O abandono é uma perfeição.
Amar sem saber de nada, até onde se esgarça,
onde há que se pisar em brasas, a pão e água,
sem benção nenhuma.
Amar na decadência e no perigo. Amar o medo disso.
Amar no vazio,
no vácuo, até o nada completo onde ainda sou capaz de
desenhar seu rosto - com que tinta?

Maria Rita Kehl

Escrito por Virna Teixeira, na categoria poemas | Comentaram (2)

05. 08. 2010
às 19:52horas.

EPITÁFIO

‘Here lies One Whose Name was writ in Water’

O molde, máscara
mortuária,

rosto. John

Keats,
25 anos

viveu

neste quarto
estreito

bacilos

sobre os degraus
da Piazza di

Spagna.

Virna Teixeira

Em: Distância, 7 Letras, 2005.

Escrito por Virna Teixeira, na categoria poemas | Sem comentários (0)

06. 07. 2010
às 19:38horas.

ponte.jpg

Poetas de Fortaleza

Uma resenha sobre a antologia bilíngue Meio-dia, organizada pelo poeta Diego Vienhas, e publicada no Brasil e Argentina pela editora Vox. Tradução de Sílvia López.

Escrito por Virna Teixeira, na categoria poemas | Sem comentários (0)

12. 06. 2010
às 11:02horas.


Planets

The planets move, and earth is one, I know.
Blue with endlessly moving seas,
white with clouds endlessly moving
and the continents creep on plates
endlessly moving soundlessly.
How should we be exempt
or safe from change, we walk
on mercury from birth to death.
A face comes through the crowd, lips move, new eyes,
and the house of roots trembles,
its doors are slack, its windows yawn
a place not known to be defenceless
undefended. Who wants sedge
at the streak of the kingfisher?
Now you have almost worn out my tape
of ‘the planets’, but I don’t know yours,
or your sign, though Mars the Bringer of War
is what you play most. We’ve talked
of Jenghiz Khan, of Christ, of Frankenstein.
I don’t know whether you believe
in the fate I can’t not believe in,
simply to watch you swinging
in my black vinyl chair,
even bringing war.

Planetas

Os planetas se movem, um deles é a terra, eu sei.
Azul com mares que movem-se infinitamente,
branca com nuvens que infinitamente se movem
e os continentes deslizam sobre placas
que infinitamente movem-se silenciosamente.
Como ficaríamos isentos
ou livres da mudança, caminhamos
sobre mercúrio do nascimento à morte.
Uma face surge na multidão, os lábios se movem, novos olhos,
e a casa de raízes treme,
suas portas são caídas, as janelas têm lacunas
um lugar que sempre foi defensivo
sem defesas. Quem quer caniço
no rasto do martim-pescador?
Agora você quase já esgotou minha fita
de ‘Os planetas’, mas não conheço a sua,
ou o seu signo, embora Marte o Mensageiro da Guerra
é o que você toca mais. Conversamos
sobre Jenghiz Khan, Cristo, Frankenstein.
Não sei se você acredita
no destino em que eu não posso não acreditar,
apenas observar você balançando
na minha cadeira preta de vinil,
mesmo que traga a guerra.

Edwin Morgan

Tradução: Virna Teixeira

Em: Na Estação Central, coleção “poetas do mundo”, editora UnB, 2006.

Escrito por Virna Teixeira, na categoria poemas traduções | Sem comentários (0)

21. 05. 2010
às 21:27horas.

estradadavida3.jpg
Fernando Taborda. Estrada da vida, 1954.

SE A NOITE CAÍSSE AGORA DESENHANDO A SUA LUZ

Se a noite caísse agora desenhando a sua luz
escassa / dissimulando a tristeza
das mãos / um fósforo
dançasse como um relâmpago
indiscritível no olhar / perdido
na dor do silêncio / os
pés alargassem o horizonte até à pureza
inconcebível do sofrimento / se
a boca fosse um íman
ou um archote punindo o vinco das convicções

na pele coberta de sal
as aves debicassem as infinitas
trevas do teu nome / do nome espesso
da escuridão

uma árvore, apenas uma árvore, bastaria
para te salvar.

Jorge Velhote

(poema lido pelo autor durante o Festival Tordesilhas, no dia 5 de maio)

Escrito por Virna Teixeira, na categoria poemas | Comentou (1)

18. 05. 2010
às 00:10horas.

nuno_j_dice_foto_lu_sa_ferreira_doc1_.jpg

Uma reflexão sobre a beleza eterna, interrompida pela visão do efêmero

A harmonia que, para os clássicos, exprimia a relação
das partes com o todo, atravessou os milênios sem alterar
o equilíbrio do homem no centro da sua esfera. Esse
homem, com a sua representação simétrica, define-se
a partir de um universo que tem limite
na compreensão divina da matéria
e do espírito. E poderia continuar assim, se
não ouvisse um copo a partir-se no fundo
da casa – alguém que se distraiu, e que rompeu,
de súbito, o meu raciocínio. Ao mesmo tempo,
porém, descobri que nada do que eu pensava
era original; e só ao apanhar do chão os vidros
partidos, um brilho breve no seu contacto com
a luz me fez pensar que, afinal, a harmonia
também nasce da destruição, e o centro da esfera
desloca-se para o fragmento que seguro com
os dedos, antes de o deitar para o lixo.

Nuno Júdice

Em: Guia de Conceitos Básicos, Ed. D. Quixote, 2010.

Escrito por Virna Teixeira, na categoria poemas | Sem comentários (0)

22. 04. 2010
às 16:35horas.

ana_hatherly-1.jpg

28/5/1965

Vejo muitos turistas vestindo camisas de Nazaré. Dum grupo deles, à varanda dum grande hotel de luxo, digo: como estão pobres os que deveriam frequentar estes lugares. Estou com uma família inglesa. Vestem fatos de tweed de cores admiráveis. Pergunto: is it hand woven? Estou sentada a uma mesa com os turistas, falo do canto dos pássaros. Digo: sei imitar muito bem o melro. Então surge à janela um pássaro fulvo, ruivo, que identifico com um falcão mas que na verdade era um pequeno faisão. Chama, parece pedir alguma coisa. Parece cansado duma viagem. Dou-lhe pedacinhos de pão, mas ele não come. Surge então um gato preto que se atira ao pássaro e o mata. Vejo o gato agarrá-lo pelo pescoço. Vejo o sangue dele. O gato vai comer o pássaro. Num restaurante onde parece que faltou luz, uma senhora turista manda tirar de cima da mesa o maior número de coisas possível e diz: é preciso deixar espaço para o silêncio.

Ana Hatherly

Sonhos portugueses. Relatos oníricos de Ana Hatherly publicados no último número da revista Coyote.

Escrito por Virna Teixeira, na categoria poemas | Comentou (1)